Em meados do terceiro século AC, os romanos haviam dominado toda a
península itálica e lançaram-se à conquista da Sicília. A ilha, então, era dos
cartagineses, que dispunham de ampla vantagem de tropas e armas em terra,
também eram os senhores do mar, contando com numerosas embarcações, muito bem
equipadas e pilotadas por experientes marinheiros. Já os romanos lutavam com
ferocidade no campo, mas eram nulos nas batalhas navais. Mesmo assim, nos 14
anos de guerra que se seguiram, aprenderam a arte da marinharia e derrotaram os
cartagineses sucessivamente em todos os ambientes, tomando-lhes as possessões
da Sicília, Sardenha e Córsega, e o domínio dos mares, chegaram a desembarcar
na costa da África pondo em perigo a própria Cartago. Nessa ocasião, um mercenário
de origem espartana foi contratado para fazer frente aos invasores.
Imediatamente ele diagnosticou a origem das derrotas nas estratégias
equivocadas dos comandantes e não na fraqueza das tropas. Sob o seu comando, os
cartagineses lograram impor uma primeira vitória aos romanos.
Essa passagem, relatada com minúcia por Políbios, no livro “História”, fez-me
lembrar do quanto nosso destino está atado ao daqueles que nos lideram. Assim,
ofereço-a como forma de reflexão para o momento político que vivemos. Desde os
remotos tempos das cavernas, quando o homem tornou-se gregário para melhorar a
proteção, conseguir víveres e sobreviver, que o indivíduo deixou de ser dono
absoluto de seu destino. Uma incômoda parcela do nosso êxito pessoal depende da
capacidade de nossos líderes, quer gostemos deles ou não. Agora é o tempo em
que podemos fazer alguma coisa por nós. Após as eleições, as influências
pessoais serão mínimas.
O mais desastroso em ser representado por um falso líder é que os efeitos mais
pernósticos das suas decisões têm efeito retardado. Podemos sofrer durante
anos, uma geração inteira, uma vida inteira, em função do que um sujeito fez ou
deixou de fazer em nosso nome. Quase tudo que você é e tudo que você tem, o que
você come, veste, a maneira como se locomove, e mesmo as ferramentas
fundamentais para a percepção do mundo, adquiridas na educação, dependem desses
sujeitos. Até o tempo de vida e a qualidade dela, está nas mãos deles. No
entanto, não temos tempo para eles, os vemos com escárnio, repulsa e desprezo,
como se fossem todos vigaristas prontos a nos enganar. Mal os suportamos na
campanha e vamos votar por força da obrigação. Não se engane dizendo que o
brasileiro é assim, pois o mundo está desse jeito, está em crise de
representatividade, sofre fatal fragilidade das lideranças. E quando os
representantes adoecem, a falência é do indivíduo: eu e você.
Joel Gehlen, escritor e jornalista