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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Palco da Sagração


sexta-feira, 13 de julho de 2012

UR-CANTO A PALO SECO

Sem o ar na caixa torácica do homem,
a água corrente cessa
e o dente-de-leão seca.
Sem a água nas veias do homem,
a floração do arco-íris branco míngua
e o pote quebra.
Sem a música nos nervos do homem,
nada de aragem na esquina
e o bonsai murcha.
Sem o cérebro acima do pescoço do homem,
só há o horror da página branca.
Sem o amor, o fogo do homem torna-se imundo
e os lagartos mordem a própria língua.
Sem os acordes a palo seco de uma viola flamenca,
unicórnio, espírito santo e o Ur-canto inexistem.

Sem estrelas nem vendaval a noite é apenas escura.

O vendaval,
mesmo sem os acordes a palo seco de uma viola flamenca,
o vendaval,
numa rasante que encurva as árvores,
o vendaval é o único que existe.

Fernando José Karl

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A falência do indivíduo


Em meados do terceiro século AC, os romanos haviam dominado toda a península itálica e lançaram-se à conquista da Sicília. A ilha, então, era dos cartagineses, que dispunham de ampla vantagem de tropas e armas em terra, também eram os senhores do mar, contando com numerosas embarcações, muito bem equipadas e pilotadas por experientes marinheiros. Já os romanos lutavam com ferocidade no campo, mas eram nulos nas batalhas navais. Mesmo assim, nos 14 anos de guerra que se seguiram, aprenderam a arte da marinharia e derrotaram os cartagineses sucessivamente em todos os ambientes, tomando-lhes as possessões da Sicília, Sardenha e Córsega, e o domínio dos mares, chegaram a desembarcar na costa da África pondo em perigo a própria Cartago. Nessa ocasião, um mercenário de origem espartana foi contratado para fazer frente aos invasores. Imediatamente ele diagnosticou a origem das derrotas nas estratégias equivocadas dos comandantes e não na fraqueza das tropas. Sob o seu comando, os cartagineses lograram impor uma primeira vitória aos romanos.

Essa passagem, relatada com minúcia por Políbios, no livro “História”, fez-me lembrar do quanto nosso destino está atado ao daqueles que nos lideram. Assim, ofereço-a como forma de reflexão para o momento político que vivemos. Desde os remotos tempos das cavernas, quando o homem tornou-se gregário para melhorar a proteção, conseguir víveres e sobreviver, que o indivíduo deixou de ser dono absoluto de seu destino. Uma incômoda parcela do nosso êxito pessoal depende da capacidade de nossos líderes, quer gostemos deles ou não. Agora é o tempo em que podemos fazer alguma coisa por nós. Após as eleições, as influências pessoais serão mínimas.

O mais desastroso em ser representado por um falso líder é que os efeitos mais pernósticos das suas decisões têm efeito retardado. Podemos sofrer durante anos, uma geração inteira, uma vida inteira, em função do que um sujeito fez ou deixou de fazer em nosso nome. Quase tudo que você é e tudo que você tem, o que você come, veste, a maneira como se locomove, e mesmo as ferramentas fundamentais para a percepção do mundo, adquiridas na educação, dependem desses sujeitos. Até o tempo de vida e a qualidade dela, está nas mãos deles. No entanto, não temos tempo para eles, os vemos com escárnio, repulsa e desprezo, como se fossem todos vigaristas prontos a nos enganar. Mal os suportamos na campanha e vamos votar por força da obrigação. Não se engane dizendo que o brasileiro é assim, pois o mundo está desse jeito, está em crise de representatividade, sofre fatal fragilidade das lideranças. E quando os representantes adoecem, a falência é do indivíduo: eu e você.
Joel Gehlen, escritor e jornalista

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Irresistível solidão



Nem sabia que a dor da solidão pudesse ser assim tão doída. Um doer a que não se resiste mesmo sendo o mais estoico dos seres. É uma lição a mais que aprendo. Ele também me ensina que ser paciente nos mantém vivos e, mais do que isso, que a vida vale a pena, por mais distante que estejam os dias dourados, por mais sofrida que seja a vida que se leva, por mais humilhante que pareça a sua condição. Todo dia aprendo que, com ele, um instante a mais de vida é uma dádiva, e por mais íntimo que a gente esteja da morte, não é a ela que se deve esperar, nem combater com desesperos e palpitações exageradas.


Na sua avançadíssima idade, ele abriu mão do que nos orgulharíamos tanto em chamar de dignidade – especialmente masculina – e também de qualquer prurido com relação ao corpo. Não há tabus mistificatórios, desde que essa velha máquina lhe permita manter a sensação de aconchego. Gosta de ouvir tevê, e sente-se bem se há música por perto. Com as pernas paralisadas há dois anos e sem força nos braços, só consegue mover-se à medida que apoia a cabeça no chão. Assim, permanece quase que na mesma posição há 730 dias, 17.520 horas. Longas horas em que não há absolutamente nada a fazer a não ser alternar períodos de sono e de vigília. Precisa de ajuda para comer e beber, necessita ser trocado e higienizado três vezes ao dia. Amiúde busco sinais de desistência em seu semblante. Não há, ele continua apegado à vida, crente na vida, sem avidez, mas com tenacidade.


Como não tem mais voz – apenas pode gemer – guarda nos olhos toda a expressão. Com o tempo passei a distinguir: olhos de fome, de frio, de desconforto. Mas nunca de angústia ou medo ou dor. Tem os olhos negros, fundos, encravados nas encovas como se lhe boiassem dois poços na testa. É preciso limpá-los com cuidado. São dois lagos de ternura, meigos e indefesos. Mergulhados em silêncio, guardam uma mansidão quase bovina. Neles se fez tudo que expressa, tudo que diz, refúgio derradeiro da esperança nesse corpo já tão adentrado nas sendas da noite grande.


Com a barriga coberta de escaras, a coluna e o peito deformados pelo esforço de manter-se numa única posição, com os ossos lhe esticando a pele como num curtume de Soledade, a dor não lhe dá trégua. Mas ele de nada reclama, nem de fome, frio ou sede. Só há uma inconveniência que lhe suplanta o estoicismo: a solidão. A sensação de silêncio e vazio arranca-lhe gemidos e queixas. Abdicou de todos os confortos sem lamentos, nada quer e nada tem, seu único bem é saber-se em companhia de quem quer tanto bem.


Joel Gehlen - Jornalista
letradagua@gmail.com

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